domingo, 22 de fevereiro de 2009

E recomeço...


Não sei se é mais trágico eu ter tanto com o que me preocupar, e deixar tudo pra trás por você, ou se é o fato de todas as coisas com as quais tenho que me preocupar serem apenas passatempos que encontrei pra conseguir passar o dia sem te ver, sem te dizer “boa noite, bebê, sonhe comigo”.
Tento, do fundo do meu coração, impedir que essa tristeza incrustada com a tua falta me consuma e paralise. No entanto, me sinto tão impotente quanto me senti ao te ouvir dizer “não há amor que agüente isso”, derramando as lágrimas de desespero mais sinceras que eu já vi rolar. E a ironia de tudo é pensar em quantas lágrimas eu viria a derramar depois, sem o mesmo brilho dos seus olhos bicolores, mas com o mesmo desespero sincero que tanto já houvera nos machucado.
A diferença é que do lado de cá não há beijo depois do tapa. Se antes o problema era o que se dizia, agora é o silêncio quem incomoda. O escuro do quarto, o vazio do copo. O meu vazio.
Ainda assim, vivo fingindo ter saído impune do crime. Sigo sem tirar a máscara mesmo quando acaba a festa.
Ao me olhar no espelho, encaro com surpresa o estranho à minha frente, e o odeio com uma intensidade que só não é maior do que o que finjo não mais sentir por você.
Enquanto isso, imagino se alguém seria capaz de faze-la derramar novamente aquelas lágrimas, com o mesmo desespero. E me ofendo ao acreditar que sim.
Essa possibilidade de você viver sem mim me amedronta, e mesmo quando no quarto escuro, com o copo vazio, não sou ainda capaz de viver uno, tamanha a sua presença ausente nos meus momentos de solidão; essa perda de unidade me tira também a identidade, e eu já não sei se o estranho é o que está no espelho, ou se é o que escreve.
Assim, enquanto ninguém for capaz de chorar as suas lágrimas, de sorrir o seu sorriso, vou sempre me sentir incapaz de cessar as minhas lágrimas, de abrir o meu sorriso.
E se de fato ninguém for capaz, eu ponho sua máscara em outros rostos, finjo ser o início de tudo, e recomeço.


Ao som de: Elis Regina - Atrás da Porta

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Cabelos vermelhos e lápis de olho

Indo hoje para a estação de trem, vi uma garota que era a sua cara. Ao vê-la, pensei estar vendo você, e esse pensamento não se desfez mesmo depois de notar que os cabelos dela tinham ondas. Diferentes dos seus, que eram linda e artificialmente lisos. E ainda assim pensei que fosse você, numa fase nova, com um novo humor.
Sem contar que a cor era a mesma. O mesmo tom de vermelho que sempre me encheu de ciúme e desejo.
Ela não tinha suas tatuagens, e foi só ao notar isso que eu passei a acreditar que talvez ela não fosse você. E, ainda assim, por instantes, cheguei a culpar minha miopia, alegando a mim mesmo que as tatuagens estavam ali, sim, e eu apenas não as estava enxergando.
A verdade é que eu tinha tanto medo e tanta vontade que fosse você que me recusava a acreditar que aquela garota era tão parecida com você, sem ser você de fato.
De qualquer forma, isso não impediu que eu instantaneamente me apaixonasse por ela. Mas não sinta ciúmes, porque, ao me apaixonar por ela, eu estava, na verdade, me apaixonando por você. De novo.

Quando a perdi de vista, passei a imaginar quão bom seria estar com ela, sentir seu cheiro e provar o gosto da sua boca. Isso quando, no fundo, o que eu queria mesmo era provar de novo o seu abraço e o seu beijo. Com isso, pra que minha felicidade completa, seria necessário que ela fosse igual a você mesmo naquelas coisas que eu sempre achei que só encontraria em você e mais ninguém. E na minha paixão, eu acreditava que mesmo isso fosse possível.
Imaginei se ela também tinha o seu cheiro, e se o quarto dela também ficava com aquele cheiro que a gente deixava depois de uma tarde de janelas fechadas. E, por mais improvável que seja, até nisso eu cheguei a acreditar, num desespero próprio dos novos amantes.

Porém, como todas as outras depois de você, essa paixão não durou muito, e agora que estou no trem escrevendo tudo isso, todo o sentimento por ela já se esgotou, e eu voltei a te amar incondicionalmente. De novo.

E, ainda assim, enquanto escrevo, ainda duvido um pouco que não era você ali. Imagino que talvez você também estivesse me olhando, e até que talvez tenha se apaixonado por mim de novo.
E quem sabe agora você também esteja sentada em algum lugar, escrevendo sobre isso enquanto derrama uma lágrima pintada de preto por seu lápis de olho, que tanto me encheu de ciúme e desejo.

Ao som de: Candlebox - No Sense

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Dança das Multidões


Triste mesmo é acordar e notar que aquilo não passou de um sonho.
E sonho não se aproveita, não se usa como argumento pra que se encontrem ao meio-dia na catraca do metrô.
O sonho acaba quando acaba o sonho. Não tem seqüência, como cena de cinema. Não tem utilidade, razão de existir...
Assim fosse, teríamos, no mínimo, uns três amores simultâneos, todos puros e verdadeiros.
Mas não. Aquela do sonho é só aquela do sonho, e não há como materializar aquele encontro no meio da multidão, com diversos sons e cores, sem nenhuma definida, quando tudo que parecia palpável era a sua silhueta cor-de-rosa, e até hoje eu não sei o porquê dessa cor, sendo que você nunca gostou dela.
O fato é que o seu vestido era cor-de-rosa, e você dançava, sem nunca ter gostado de dançar, e eu assistia – acho até que aplaudia – e nós nos abraçávamos, e já não havia qualquer resquício da multidão. Estávamos sozinhos num sofá qualquer, a televisão ligada, ninguém assistindo, e nós nos amamos.
O problema é que quando acordei pela manhã, tudo estava normal. Você não estava aqui, e eu jamais ousaria te ligar e te chamar pra assistir televisão, pra dançar no meio da multidão.
Quando acordei, as minhas obrigações eram as mesmas de sempre, e na agenda do dia não constava qualquer encontro à tarde no motel, nenhuma estréia no cinema, nenhum bar novo que você tenha insistido em me fazer conhecer.
A verdade é que, entre o sonho de ontem e o de amanhã, não há ninguém que faça assim tanta questão da minha presença. E talvez também por isso você me faça tanta falta.
Não que eu me sinta sozinho, não que eu não me sinta.

Só precisava escrever isso porque sonhei com você essa noite, e quando acordei você não estava aqui.
Se não posso materializar aquele encontro, sobra o texto, o registro.
E é bobagem pensar que vou sonhar com você de novo nessa noite, porque eu simplesmente não sei. Não sei se vou dormir. Se dormir, não sei se vai ser sozinho. Se sonhar, não sei se vai ser com você.
Afinal, não que eu não me sinta sozinho, mas às vezes a vida parece uma cena de cinema, então pode ser que na próxima tomada o meu personagem esteja numa cena de amor num sofá, a televisão ligada. Quem sabe dançando no meio da multidão...


Slash – Dez / 08

Ao som de: Journey - Loving, Touching, Squeezing

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

De pão de queijo a Norah Jones

Se eu paro pra pensar no por que de tanto amor, lembro do carnaval refugiado embaixo do edredom, comendo pão de queijo queimado, porque a gente tinha muita pressa pra se amar, e esquecia de todo o resto.
Lembro do domingo no zoológico, do elefante filhote que se exibia pra nós. E você ria, e me beijava, e se jurava tão feliz que eu chegava a pensar que era qualquer espécie de deus, capaz de controlar o quão feliz você deveria ser, quando, na verdade, eu não tinha sequer o controle dos meus próprios sentimentos.
Lembro da gente andando de “namoradeira” no parque, brigando porque eu dizia que você não pedalava, até ver que a minha corrente estava solta, e perceber que havia pedalado em vão por metros, e ainda tinha que recolocar a corrente nos pedais. Sem nem pensar em me ajudar, você novamente ria, e eu queria te matar. Mas só até notar que meus dedos estavam cheios de graxa, e isso, somado ao meu amor, me davam vontade de te abraçar, de acariciar seus cabelos, pintar teu nariz de preto, e você não deixava, e tudo isso fazia eu te amar ainda mais.
Lembro dos dias inteiros trancados no quarto, com tanto pra fazer lá fora, e tanta vontade de ficar. E ficávamos: eu querendo sair pra fumar, e você dizendo que podia fumar no quarto, mas reclamando do cheiro na cortina, da luz do sol, de mim. E, ao mesmo tempo, me abraçando tão forte quanto ninguém mais eu permiti abraçar.
Lembro das eternas conversas ao telefone madrugada afora, quando você dizia que não tinha assunto, e eu entendia que sua mãe já estava dormindo, e que agora podíamos falar o que quiséssemos. E o que nós queríamos era tanta coisa, que o assunto se estendia, e ninguém dormia, e eu te odiava por me fazer perder uma noite de sono, e te amava por me proporcionar uma noite que só era imperfeita porque faltava o seu cheiro, o seu braço envolto no meu, sua perna a me cobrir. E apesar dessa ausência presente, eu tinha todo o resto, e me sentia o homem mais feliz do mundo.
Lembro dos cachorros que nos seguiam, ou pra ser mais exato, dos cachorros que nós seguíamos, só pra acariciá-los e lhes dar um pouco de amor e carinho. Afinal, nós tínhamos tanto entre nós, que dividir com os bichinhos não seria nenhum prejuízo, e a vontade de fazer isso nos mostrava o quanto éramos parecidos, e nos dava razão pra continuarmos juntos, embora não precisássemos de fato de qualquer razão pra nos amarmos, e aos cachorros da rua.

A única coisa da qual eu não me lembro é do exato momento em que pensei que não deveria mais continuar do teu lado.
Dia e dia, passo uma parte considerável do meu tempo tentando entender como pude ter sido tão estúpido, a ponto de achar que seria capaz de seguir sem você com o mesmo sorriso, a mesma vontade de viver, a mesma esperança...
Procuro nos filmes, nos livros e nas músicas, um sentimento maior que o meu, mais intenso e verdadeiro, mais fiel e mais devoto. Bobagem. É tudo paixãozinha, namorico.
E durmo toda noite sem resposta, sem explicação.

Porém...

Antes de te conhecer, eu não fazia idéia do que era gostar de alguém a ponto de perder o rumo, a cabeça, o emprego.
Não sabia que num mundo tão medíocre, alguém seria capaz de deixar de lado as próprias convicções sobre a existência do tão dito amor, passar a acreditar nisso, e muito menos que esse alguém seria eu.
Isso me faz chegar à conclusão de que, no fim das contas, tudo o que você fez foi me ensinar.
E, tentando ser um pouco lógico, penso que por todas as coisas pelas quais passei na vida, primeiro aprendi, pra depois colocar em prática.
Sendo assim, é impossível que eu esteja perto do fim, como já cheguei a pensar, nas noites de sábado em que comecei a perceber que você já não ia mais ligar e me chamar pra dormir na sua casa.
Se eu aprendi com você, isso significa que agora é que chegou a hora de eu amar de verdade.
Agora que eu sou realmente capaz de respeitar alguém como a mim mesmo, de fazer alguém realmente feliz. De segunda a segunda, todo dia do ano, pro resto da vida, ou enquanto durar.

Ou então essa é só a desculpa que uso pra fingir que ainda sou capaz de amar alguém assim como eu te amei.

Se bem que eu acho que é só brisa mesmo. Amanhã de manhã nem vou lembrar.
Com isso, certamente eu vou ler esse texto, ouvir Norah Jones e pensar: e não é que o amor existe mesmo?
E jurarei amor eterno a Norah Jones.

Slash - Dez / 08

Ao som de: Norah Jones & Keith Richards – Love Hurts

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Um pouco mais do mesmo de sempre...

Se esse oceano não fosse mais que um pequeno lago, essa imensa solidão seria mera saudade, dessas que a gente gosta de sentir porque sabe que falta pouco, é logo ali...
Saudade que se mata com telefonema inesperado de manhã, almoço com cadeiras grudadas, sorvete de sobremesa, banco de praça, beijo babado, te amo, te ligo mais tarde.

Deixa de ser mera saudade quando há medo. De não voltar, de esquecer, de conhecer alguém melhor, nunca mais telefonar.
E o medo de perder afasta, como um ímã invertido.

Sabe-se lá porque, vocês resolvem morar um de cada lado do oceano (outrora pequeno lago), riscam os telefones de quem se foi, como se os fosse esquecer, como se isso fosse suficiente pra esquecer o nome e a covinha que surge quando ela sorri.
A aliança vai pro lixo, com o que restou das cartas, do cartão de natal, do artesanato feito com o maço de cigarros com as iniciais dentro dum pequeno coração torto.
Antes de ir pro lixo, tudo é cuidadosamente amassado e amaldiçoado, pra se ter certeza de que nada vai criar vida e voltar pra gaveta, que nada vai voltar a assombrar, como se isso interrompesse as lágrimas, esquentasse as noites, curasse as feridas.

Aí você passa a querer de volta o tempo em que tudo o que sentia era mera saudade, e tem vontade de voltar atrás, fazer tudo certo dessa vez...
Mas o próprio medo o impede. E o medo gera medo, que renasce medo e nunca morre.
E mesmo apavorado, você decide subir ao farol pra tentar enxergá-la do outro lado do enorme oceano. Em vão.
É quando volta a sentir saudades do tempo em que dali se via apenas um pequeno lago, com uma pequena ponte de madeira na qual vocês passavam as tardes de domingo riscando as iniciais em corações tortos em cada pedaço de tronco, documentando o amor, numa tentativa frustrada de eternizar algo que de tão passageiro, já não existe mais.
Depois de tanto medo, o que resta é a dúvida, o não saber. E unicamente por não saber pra onde ela foi hoje, se ela voltou cedo pra casa, se está dormindo sozinha, você passa a odiá-la, e a duvidar do amor.
Duvidando do amor, você se fecha numa redoma intransponível, e fechado para o resto do mundo, o que resta é vê-la voltar pra você. Afinal, durante todo esse tempo, ela também esteve no farol tentando te enxergar, e rezou noites a fio pra voltar com você à pequena ponte pra juntos riscarem um novo coração.
No entanto, quando ela volta pra você, você já se fechou tanto em sua redoma, que agora é incapaz de tocá-la, senti-la, beijar sua nuca e fazê-la tremer.
E hoje você é isso: um aprisionado morrendo de medo, por não saber sentir apenas... saudade.
Daí você a vê vivendo a vida, enquanto lá fora todos dizem que, uma vez presos, não há volta, e isso a faz, inadvertidamente, desistir de você.
Sem outra alternativa, ela conhece pessoas, comete erros, sofre, chora, se diverte, goza, vive.
Enquanto isso você comete erros, sofre, chora, se diverte, goza, e jura trocar tudo por mais uma chance de afastar-lhe o cabelo das costas, apertá-la contra seu corpo e fazê-la tremer até desmontar morta de cansaço e alegria.
Visto que isso é tão improvável quanto é desconhecido o que há por vir, você mantém-se na segurança da redoma, compartilhando o que sente com os que também optaram por estarem sãos, salvos e sós.
E como tem gente sozinha nesse mundo...

Quem sabe um dia ela também se refugie na redoma, e possa assim te achar.
Quem sabe um dia ela perceba que não poderá ser tão amada por mais ninguém, e que nunca amará alguém como a você.
Quem sabe o próximo poema seja uma ode ao amor, à alegria de reencontrar aquilo que simplesmente não poderia ter partido nem por um minuto, e por isso se fez tão presente por todo esse tempo em que ambos foram apenas um.
Quem sabe tudo isso seja apenas fruto de uma mistura inapropriada de bebida, cigarros e uma música triste.
Quem sabe isso acabe antes que eu volte a pensar em você.
Tomara que não antes de eu descobrir qual inicial cabe no meu exausto e rabiscado coração.

Slash - Dez / 08

Ao som de: Tina Turner - Simply The Best

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Não é ela

"Venho procurando por ela incansavelmente.
Ela, aquela que é minha e de mais ninguém.
Aquela da qual não conheço as vontades, os gostos, trejeitos, os sonhos ou medos.
Aquela que nunca vi, e sobre a qual tudo o que sei é que também procura por mim.

Pois ela precisa do que eu tenho, e eu preciso de tudo que ela tem a me oferecer.
Eu sonho com ela toda noite, e quando com os olhos abertos estou sempre atento, imaginando que ela é aquela que pega o Bandeira comigo toda tarde, ou talvez a que me liga mensalmente oferecendo seguro de vida.Quem sabe a balconista da padaria, ou a vizinha do apartamento 43...? Ou seria a do 31?

A essas da madrugada, imagino que ela esteja deitada na cama, com apenas metade do corpo coberta, um romance na mão, mas desatenta, imaginando onde eu poderia estar.
Talvez num sono profundo, num sonho sem sentido.
Pode até estar em algum barzinho do Centro, me procurando, sem imaginar que estou à frente da máquina de escrever, divagando a seu respeito.
Ainda que esteja na cama com um outro qualquer, amanhã pela manhã ela saberá que “ele não sou eu”, e vai se arrepender.
Se não amanhã, um dia ela se arrepende, e eu quase posso ouvi-la dizer à melhor amiga:
"Pensei que fosse, mas não era ele."

Acontece que eu não sei.Realmente não sei quanto ainda viverei até encontrá-la, e por isso talvez seja melhor parar por aqui.
Minha namorada acabou de acordar, talvez com o barulho da máquina, e tenho que voltar a me deitar com ela, mais uma vez.
Mas eu sei:
Não é ela.Ainda não é ela."

Slash - Jan / 06

Ao som de: John Mayer Trio - Who Did You Think I Was?

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008


Tentativa frustrada de ensaio

E eu que me sentia tão sozinho, de repente me vi cercado de tantas pessoas, tantas coisas, tantos lugares. E tudo me parecia tão belo quanto os girassóis de Van Gogh.
Eu que me achava tão impuro, de repente me vi tão aceito.
De aceito fui a essencial, e desde então sou o que se vê, e na minha miopia, fico sem saber o que se passa pela cabeça de quem me vê.
Assim passo, despercebido ali, marcante aqui, e vou seguindo o meu caminho, que a cada dia é diferente do anterior e, por sua versatilidade, me confunde tanto, e eu fico sem saber de fato por qual caminho seguir.
Ali sou um pouco disso, aqui, um pouco daquilo, e nunca sei quando me misturo. Choro, quando ninguém me vê chorar, e rio, pra que vejam que ainda sou capaz.
Não quero provar nada a ninguém, e o faço a cada passo. Estou sempre torcendo pra que o que eu faça seja o melhor, sabe-se lá pra que, e não importa a quem.
Por bondade, diriam. Mas não é. De bondade me cansei e sinto nojo. Faço o que faço e sou o que sou por vaidade. Sou inescrupulosamente bondoso, pra que gostem de mim.
Sou o Narciso que vê o próximo no reflexo, e quero o que restar do amor do mesmo.
Então me sinto sujo, e me odeio. Me odeio a ponto de querer que me odeiem, pra que assim eu sofra o que mereço, ainda que um pedaço sofrido do meu eu ainda ache que eu só preciso de um colo e um pouco de compreensão, e assim, me perdôo.
E esse pedaço sofrido do meu eu se faz tão presente, que eu já não sei se isso é exatamente o que me transformei depois de tanto que passei. E é aí que minha racionalidade me lembra que sou tão jovem, tão imaturo e inocente, que fazer se passar por vivido por conta de um amor inacabável não me torna alguém melhor.
É quando penso: por que passei então?
Lembro-me então do que era antes disso tudo, ou, ao menos, o que me permito lembrar.
Sinto vergonha de pensar que pude ser tão egoísta a ponto de pensar que o mal que fazia a mim não afetaria aqueles que hoje me aceitam, e, assim, sinto-me de certa forma feliz por ao menos ter preservado isso.
Nessa dúvida constante sobre o que realmente sou, o que realmente sinto, me confundo tanto que só o que faço é procurar explicação pra tudo. E tal busca me traz uma consciência que eu, muitas vezes, não sei se quero ter. Por outro lado, é a própria consciência que faz com que eu tome as decisões que me parecem mais acertadas, ainda que nem todas me façam assim tão bem.
E apesar de tudo, às vezes acho que não sou mesmo tão ruim assim. Tenho um certo valor, quissá algum talento, e uma vontade enorme de aprender. Tento ser o melhor amigo possível, o melhor amante da semana, e às vezes consigo.
Só não consigo entender porque me culpo tanto por isso. Afinal, querer que gostem de mim não pode ser um crime, e ainda assim me julgo a todo momento, e sempre me condeno no final.
Mas sei lá, na verdade eu ainda to aprendendo. Quem sabe ainda não aprendi essa lição, quem sabe um dia eu me aceite...
Enquanto isso, vou tentando melhorar.

Slash - Dez / 08

Ao som de: Jeff Buckley - Lover You Should've Come Over

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Sobre ela, porém seu

Eu cansei de escrever sobre você, e a verdade é que me machuca muito escrever sobre você. Então esse é pra outra.
Esse é pra aquela que passou, e que surgiu e se foi com a mesma rapidez. Aquela que fingi amar, mas que não me dava nenhuma palpitação, não me tirava o freio e o senso de direção, não deixava saudade quando partia, não era você.
E o texto que seria dela, volta a ser seu.
O fato é que, a mim, simplesmente não importa o que ela sentiu quando eu lhe disse que aquela brincadeira já estava ficando séria demais, e que era melhor pararmos por ali. Ela pode ser e ter tudo, mas não é e nunca será...você.
Ela pode ter me ajudado, sim, não nego. Pode ter sido tão sensível e doce quando tudo me parecia tão triste e vazio, e me comoveu, como deveria ser. Mas daí não passou, pois eu não tinha vontade de ligar pra ela pra dizer “bom dia”, e me incomodava quando ela fazia isso. Sendo que, quando você me ligava às seis da manhã pra contar o seu sonho mais bobo, eu tinha vontade de ouvir sua voz mais de perto, e sentir o seu hálito de café da manhã, beijar sua boca e te levar de volta pra cama.
Quando ela me abraçava, eu sentia sim, um carinho enorme por aquele rosto triste querendo sorrir, de uma menina perdida, procurando se encontrar em mim, sem saber que eu já não sabia onde estava depois que te perdi.
Por outro lado, quando você me abraçava, eu já não sei dizer o que eu sentia. Talvez fosse como sentir que o chão havia sido tirado, dando uma sensação gostosa de vôo, e a gente voava juntos, agarrados um ao outro, com medo de soltar e acabar caindo.
Ainda assim, ela ousou me amar, veja só. Como pôde, coitada, deixar-se entregar tanto a alguém tão preso ao passado, tão amarrado a alguém? Será que ela não era capaz de perceber?
Assim ela fraquejou, e saiu tão ferida que eu tive vontade de chorar. Não por ela, mas por pensar que era pela minha fraqueza que ela caíra. E pela minha fraqueza, outras haveriam de cair, enquanto você continuaria atrás dessa sua fortaleza, que de tão intransponível, te tornou tão só.
Contradizendo tudo o que eu já disse, não existe mais amor depois de você. Nada nesse mundo pode superar o que foi aquilo, e o que ainda significa pra nós. Porque eu sei, e você também, que apesar do fim, esse amor não vai acabar jamais, como um infinito ao contrário.
E o que eu escrevo é mais seu do que nunca. E eu sou mais seu do que nunca, e nem ela nem você jamais saberão. E eu serei sem saber, despercebido.

Slash – Nov / 08

Ao som de: Herbie Hancock & Christina Aguilera - A Song For You

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

O que restou daquela conversa


E quando parece que está tudo perdido, você percebe que está no lugar certo, embora perdido em si.
Você está no lugar certo, e esse já é um passo enorme. Há tempos vem dando voltas e voltas num labirinto sem fim, então ainda que o lugar certo não seja a saída, ao menos é mais confortável saber que lá não há solidão. Porque, se o tivesse, não seria assim tão bonito, e não teria aquele rosto tão lindo no curto horizonte. Até aqui todos os horizontes eram paredes, e só por isso, já é melhor.
Então você decide ficar um tempo lá, até porque solidão compartilhada é companhia, e os dois estão precisando de alguma.
É quando você quer saber quanto tempo ela levou pra chegar ali, e ela quer saber o mesmo de você. Ela conta dos obstáculos pelo qual teve que passar, e além de pena, você sente uma identificação imediata, porque também passou por tanta coisa, e ela quer saber, com todos os detalhes.
Pra contar tudo, vão precisar de mais tempo. Pra isso, têm que se ver de novo.
Vêem-se mais duas, três vezes, e agora que estão juntos, andam mais à vontade pelo labirinto, e juntos vão encontrando passagens que não conheciam até então. É quando percebem que juntos podem ir mais longe, e por isso resolvem não se separar. Começam a se distanciar mais, e é tão gostoso poder conhecer tanta coisa, sentir tantos cheiros, provar tantos sabores...
De repente vocês se vêem tão longe de tudo, que agora o labirinto é totalmente diferente daquele no qual vocês se encontraram, e vocês já não fazem mais idéia de como voltar.
A verdade é que não têm certeza se querem mesmo voltar, e ao mesmo tempo, não sabem se quem está do seu lado realmente vai ser capaz de te levar à saída, quando é essa a intenção primeira de qualquer relacionamento: encontrar a saída do labirinto em que todos entram quando resolvem brincar de amar alguém.
Distante demais do ponto onde se encontraram, e sem ter idéia do que encontrarão à frente, vocês resolvem seguir, acostumando-se em ter alguém do lado, e felizes por, pelo menos, não estarem mais tão sós.
Então chega o momento em que começam a notar com mais atenção os novos caminhos que encontram, e percebem que há alguns onde só se pode passar uma pessoa, e passam a ter uma curiosidade imensa em saber o que se esconde seguindo por lá.
A curiosidade vira obsessão, e de repente quem até agora era companhia, torna-se um peso impossível de carregar, e é quando os dois decidem voltar à solidão, a qual agora ambos chamam de "liberdade".
Sozinho (ou livre), você tem a oportunidade de voltar ao labirinto em que vivia antes de conhecê-la, mas prefere descobrir o que há nesses caminhos por onde só se entra só. Ela faz o mesmo.
E qual não é a surpresa de ambos ao descobrir que as pessoas que renunciam à suas companhias e entram nessas estreitas passagens, de repente encontram-se no mesmo labirinto, e passam a procurar umas pelas outras novamente.
É claro que em todo este percurso, muitos se perdem, e passam a andar sem rumo, procurando qualquer fresta por onde consigam sair dali.
Outros encontram suas antigas companhias, pedem-se perdão, e voltam a seguir juntos.
E há ainda aqueles que, uma vez sozinhos no meio de tantas experiências, encontros, desencontros e paixões, decidem por viver um pouco de tudo, até descobrir se há mesmo uma saída pra tudo isso. Se nunca descobrirem, do que importará? Ao menos enquanto estiveram presos, viveram.
Esses, geralmente, tornam-se poetas.

Slash - Nov / 08

Ao som de: Guns n' Roses - So Fine

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Quem escreve um poema

Ainda bem que ninguém sabe o quão tolo pode ser quem escreve um poema. Porque quem escreve um poema não passa de um medroso que acabou de aprender a jogar com palavras, e usa isso como desculpa pra não aprender como se joga a vida. Com isso, aprende a jogar a vida fora, com palavras que não têm em si qualquer valor.
Quem escreve um poema joga uma tarde fora pra lembrar uma tarde triste. E ainda assim, faz questão de eternizá-la em palavras que, se usadas na hora certa, poderiam ter mudado o rumo daquela tarde pioneira, e fariam da segunda um passeio a dois, um filme no cinema, um caminhar de mãos dadas numa rua tranqüila.
Quem escreve um poema não se contenta em passar por uma situação ruim. Pelo contrário: faz questão de tomá-la como exemplo do que deve ser escrito e vivido, e assim auto condena-se ao fracasso. É por natureza pessimista, por alimentar uma idéia otimista sobre coisas que ele próprio impossibilitou.
Quem escreve um poema sela um cavalo louco. Entra numa guerra fria sem inimigo, e é capaz de perder.
E é por isso que eu só escrevo “poeminha”. Porque quem escreve “poeminha” é quem tem um medinho qualquer, e, só pra facilitar as coisas, escreve. Desperdiça algumas coisas, sim, mas “e quanto às palavras”?
Quem escreve um “poeminha” é alguém que simplesmente não foi capaz de esquecer. E assume talvez ter errado.
E quem escreve um poeminha acha que talvez seja melhor registrar isso, pois reviver é tão improvável, que algo tem que restar disso tudo. Talvez não nutra assim tantas esperanças, mas quem sabe um dia...
Também, quem sabe, quem escreve um “poeminha” sele o cavalo louco e acredite assim chegar a algum lugar. E, afinal, é mais fraco na guerra. Não há como negar.
O que resta é essa tentativa frustrante de escrever as palavras que não tem si em qualquer valor.
E ainda assim tem sempre alguém que lê; tem alguém que sempre lê.

À M.
(Inveja de Denise Stucchi)

Slash - Nov / 08

Ao som de: Damien Rice - Cheers Darlin'

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

É de rir


É de rir esse meu jeito de andar
Com medo de te encontrar
Tomando um sorvete ou um porre
Num lugar por qual passamos
Rindo do jeito de andar
Dos que tomavam porres
Por não ter quem amar

É de rir eu dar toda essa volta
Pra não cruzar o teu caminho
E perceber que você ainda anda
Nas ruas que eram nossas
E aí você me desanda
Eu fico sem ter pra onde ir
E a cada rua me sinto mais sozinho

É de rir eu fingir tanta alegria
Dizer que o pior já passou
Quando te vejo passando
E sinto a mesma tristeza
Do dia em que você se foi
Quando me disse chorando
Que ainda chegaria o dia

E é de chorar esse meu jeito de andar
Te procurando em todo lugar
Pra tomarmos aquele porre
No mesmo lugar em que passamos
Rindo do jeito de andar
Dos que tomavam sorvetes
E não souberam amar

Slash - Nov / 08

Ao som de : Straycats - I Won't Stand In Your Way

quinta-feira, 6 de novembro de 2008


Que pena que a gente não sabe esperar, quando a própria espera é a solução, quando bastaria um mínimo de controle pra ter de volta a calma. Por medo de que o próximo dia seja o último, chegamos a lamentar por haver tantos dias por vir.
Engraçado como a gente tenta explicar coisas que simplesmente não existem pra serem compreendidas, pois, se assim o fossem, não teriam qualquer encanto ou razão de ser. Ainda assim, a gente procura razões, aponta culpados, e, como é de se esperar, nos desapontamos no final.
Que pena pensar que basta um dia bonito pra gente se sentir capaz de seguir com um remo só, e de repente se vê sem forças e sem abraço no meio do mar revolto. Tudo que parecia tão próximo e palpável se esvai, e de repente o azul que era lindo passa a causar náuseas.
E de repente quem te vê não sabe se você chegou de fato a algum lugar, quando você é o único que tem certeza que não. E só quando a maré baixa, voltamos a enxergar que o que passou não é tudo. Que além desse mar, há tanto mais por ver, e por viver. E voltamos devagar, com o remo em uma mão, e o mundo na outra.
E depois de uma longa viagem, (quase) todas as coisas estão de volta ao seu lugar, e é quando nos sentimos prontos pra recomeçar.
Ao recomeçar, voltamos a ter a dimensão de tudo o que estava pra ser jogado fora, e nos sentimos tolos, porém felizes por estar de volta.
É quando se percebe que o que buscávamos não era exatamente o que queríamos, ou que, pelo menos, não é mais. E nos sentimos mais tolos, no entanto, ainda mais felizes por estar pisando em terra firme, e poder enxergar tão longe.
E daqui fica mais fácil ver que a felicidade é grande demais pra morar apenas na sua cama, no seu ombro e no seu telefonema dizendo que não acabou.
A felicidade está em saber que você remou comigo, e me ensinou tanto, que eu fui capaz de voltar sozinho. Está em descobrir que eu quero e posso tanto, quando foi você quem me ensinou a querer e a poder, e hoje eu me sinto realmente capaz de ser uma pessoa melhor pra mim, pra você, e pra quem precisar da minha cama, do meu ombro, ou de um telefonema dizendo que tudo vai ficar bem no fim das contas.
Hoje eu me sinto feliz em ver que a felicidade ainda é possível, e que valeu a pena ir, mas valeu ainda mais a pena voltar.
E a gente ainda vai acabar se cruzando por aí. Cada um com um remo e um mundo nas mãos.
Quanto a todo o resto, um dia a maré traz de volta...

Slash - Nov / 08

Ao som de: Aerosmith - What It Takes (!)

domingo, 2 de novembro de 2008

O porque de tudo isso


Esse é o meu poema sem rima, sem métrica, sem valor e sem por que
Esse é o meu refúgio, o casulo em que me escondo enquanto não posso voar
Esse é o momento em que me permito pensar em você
Esse é o beijo de boa noite que eu gostaria de te dar
Quando eu te confesso coisas que você nunca vai saber

E aí vai o rapaz confuso que esqueceu o que é sonhar
E ali vai a moça sofrida que não sabe mais amar
Quebram promessas e devolvem as roupas
Rasgam as fotos e guardam a aliança
Num lugar em que não possam encontrar

Daí o poema, a tristeza e os cigarros
Daí a saudade, o medo e a agonia
Daí a vontade de acabar o dia
Num sono que não terá manhã
Do pai que não verá a filha


Ri quando pensei que me sinto como um irmão siamês rejeitado por você, que foi embora e esqueceu de arrancar esse pedaço do seu corpo que ta colado no meu pra sempre. Ri porque você finge que foi embora, e por mais que tente, não consegue seguir sem o pedaço que é meu.

Embora tenha escrito isso chorando...

Slash - Nov / 08

Ao som de: Scorpions - You And I

Quatro amores e nenhuma estória pra contar

“Talvez o caminho seja desistir”, ele pensava. E a cada noite se convencia mais de que a expectativa nada mais que é do que o prelúdio da tragédia.
Era como assistir o projétil se aproximando da cabeça, e sentir uma excitação tal que o levava a querer viver aquilo até o fim. Fim esse que não é diferente do que se esperava, mas nem por isso menos chocante.
Cultivava cada dor como se fosse uma filha que precisa de carinho e atenção. E ignorava toda e qualquer possibilidade de se alegrar. Cegava-se e saía do caminho, pois aquela iminência da felicidade o assustava a ponto de fazê-lo se esconder e chorar. E, no fim das contas, era necessário que alguém cuidasse dela.
E engana-se quem pensa que ele sempre foi assim.
Houve momentos em sua vida em que flertou com a ventura. E como dói lembrar...
Toda e qualquer memória do tempo em que foi feliz o machuca, e ele se sentia um transgressor da lei, por fingir ainda viver aquela tarde em que ela deu três ou quatro passos apressados em sua direção, ficou na ponta dos pés pra agarrar o seu pescoço e lhe disse: “Ninguém no mundo jamais será capaz de me fazer feliz como você me faz”.

Isso passou, e talvez alguém tenha sido capaz. O fato é que agora isso nada mais era que uma memória proibida, e foi aí que ele pensou que o caminho fosse desistir.

Ainda assim, tentou de novo.

Quando a conheceu, todas as coisas se tornaram possíveis. Não tinha vontade de dormir, porque assim teria menos tempo do dia pra pensar nela, e fazer planos, e fazer contas, e comprar liquidificador. E ela ligava o tempo todo pra saber dos planos, das contas e do liquidificador. E ele contava tudo, nos mínimos detalhes. E só se ouvia “eu quero te ver”, “quanta saudade”, “eu não vejo a hora”, e “ são quatro velocidades e com o copo giratório retrátil”.

E ela deixou as contas e um medo enorme de ficar sozinho, mas levou os planos e o liquidificador.

E assim seguia, desistindo, e logo em seguida desistindo de desistir. Tentaria mais uma vez, sem entrega, sem amor, sem telefonema às quatro da manhã e sem “não esqueça de mim nem ao dormir”.
Aí sim conseguiu não amar. Tinha tudo o que precisava, e sem precisar de fato. Há tempos não se sentia tão bem, quando era isso o que mais temia.
Decidiu deixar uma fresta pra aquela dose gelada de alegria, e quando já embriagado, olhou para ela, que sorria como quem estivesse no meio de um orgasmo, e dizia estar apaixonada a ponto de fechar todas as janelas do mundo e eternizar aquele momento de suor, gozo e lágrimas.
Foi aí que ela deixou de permitir que a alegria entrasse pela fresta, e ele, amaldiçoando-a, foi embora com as janelas, deixando-a apenas com o lençol e um travesseiro pra abraçar.

“Ela que desista”, pensara, sem entender como podia ser tão egoísta, e ao mesmo tempo percebendo que foi o próprio egoísmo quem o colocou ali. E sentiu-se bem.

De forças e esperanças renovadas, ousou tentar novamente. Quando se beijavam, sentia um gosto doce que não sabia explicar, e ao fim de todas as pernoites voltava pra casa com o cheiro de chocolate do seu cabelo impregnando-lhe o nariz, e erguendo-lhe a cabeça, e corrigindo-lhe a postura. Sentia-se mais alto e mais forte, e queria enfrentar o mundo. Foi o que fez, com conseqüências desastrosas.

Ela também foi embora.

Finitas as forças, decidiu que era hora de desistir.
Jogou os remos no rio pleno de suas próprias lágrimas, e decidiu que, necessário fosse, não tentaria sequer nadar. Mas seu pequeno barco atravessou aquele rio, e ele chegou ao cais em que ela o aguardava de braços abertos, com um sorriso enorme a rechear-lhe a face, e decidiu tentar só mais uma vez.

Slash - Nov / 08


Ao som de: Arc Angels - Sent By Angels

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Nada o que eu digo faz sentido, e ainda assim insisto em enfrentar a folha em branco, o “Documento1” do Word. Carrego folhas rasgadas de um caderno no bolso, que geralmente voltam pra casa em branco. Isso se deve ao fato de que, às vezes, o que causa vontade é o mesmo corpo que impede o ato, e eu já avisei que nada do que eu digo faz sentido.
Eu ouço Elis & Tom, e desisto de escrever, pois parece que tudo já foi dito, e que tudo será cópia mal-feita. No mesmo momento, penso em algo que eu gostaria que vc soubesse, e eu nunca te direi. Portanto, escrevo.
Hoje eu queria te dizer que eu te amaria ainda que você fosse tão velha que nem pudesse mais andar, e que me entristece vc, na flor da idade, andar trôpega, tropeçar, me derrubar, e não cair. E eu avisei desde o começo...
Nada do que eu penso tem razão, e eu não ligo de estar errado. Ainda assim, não consigo evitar a culpa que sinto por não ser exatamente aquilo que vc queria. É quando lembro que vc não também não é exatamente como eu queria, e me pergunto por que insisto em te colocar em cima desse altar que nada tem de sagrado, sendo sua a culpa por isso ser tão profano, e tão bom.
E “o que é que eu posso contra o encanto”?
E não tem nada mais burro do que se fazer o que é certo. E como é bom fazer o que é certo, se foder, enquanto ta todo mundo fazendo o errado, sendo feliz, e perdendo a graça de ser, sentir e passar. E não há razão numa palavra sequer.
E disso, nada se aproveita.

Slash - Out / 08

Ao som de: Elis & Tom - Retrato em Branco e Preto

quarta-feira, 22 de outubro de 2008


Tudo o que eu queria era que vc entendesse que as minhas necessidadesnão são como as suas, que parecem ser as mesmas todos os dias. Às vezes eu preciso ficar sozinho, ouvir a música mais triste que eu conheço, e chorar. Noutras preciso de uma companhia pra conversar sobre cinema, mulheres, bossa nova, metrô, marcas de cigarro ou violência urbana.
Mas vc fica aí, me olhando com essa cara de quem não sabe de onde veio e muito menos pra onde vai. Eu te falo de tudo que importa pra mim, e pela sua expressão, eu tenho a impressão de estar falando tupi-guarani.
A gente olha pros outros na rua, e todos parecem se entender. A comunicação parece ser tão fácil de ser praticada, e nós continuamos aqui, olhando um pro outro, sem nada falar, esperando pra saber quem vai ser o primeiro a afagar o outro, sem qualquer outra intenção preliminar, sem motivo, mas, no fundo, esperando que esse carinho seja retribuído no mesmo momento.
E só aí eu percebo que talvez vc seja o mesmo único que entende quando eu preciso ficar quieto no meu canto, e não me esquece quando eu preciso de alguém pra contar o fim da noite de ontem, que foi muito boa ou muito ruim, mas o fato é que eu preciso contar pra que o fato realmente se concretize, e pra que todas as outras coisas possam retomar o seu fluxo natural. E geralmente eu só conto pra vc, que, ainda que pudesse, sei que não contaria a ninguém. E esse respeito me comove, e me faz gostar mais ainda de vc, e menos dos que eu julguei santos, e que me retribuíram com mentiras, hipocrisia, e todas essas qualidades que todos sabemos que são privilégios do ser humano.
Mas vc não passa de um cachorro, e, a não ser que o mundo esteja mesmo de ponta-cabeça, provavelmente nunca lerá esse texto.
E do jeito que o mundo parece estar de ponta-cabeça, talvez nem eu.

Slash - Out / 08

Ao som de: Johnny Cash - I Walk The Line

terça-feira, 21 de outubro de 2008


Há quem vá dizer que o amor se descobre quando os olhos se encontram. Há quem diga que só se descobre quem ama quando o perde. Há ainda quem garanta que o amor é notado com a convivência, ou com a falta.
E há outras diversas opiniões concordantes e divergentes a respeito da descoberta do amor. Cada um tem a sua, ou empresta de algum poeta ou cantor.
E eu tenho a minha:
Eu descobri hoje que amo minha noiva.Hoje, na hora do almoço.Com toda a família dela em volta.Com todos os sons e cheiros dos almoços de domingo.No meio de tudo isso, eu descobri que a amo.

O pai dela obviamente senta-se na ponta da mesa.A mãe , ao lado direito dele.Minha noiva ao lado direito da mãe, e o caçula ao meu lado esquerdo, imitando minha maneira de segurar o garfo, e lembrando a todos que eu não sei jogar futebol (ter jogado a bola por entre minhas pernas quando eu entrei na casa o faz pensar que eu sou um retardado e que ele é a encarnação do Garrincha).

Voltando ao pai, ele está ao meu lado direito, procurando minuciosamente um defeito meu do qual ele possa zombar.Mal sabe ele o quanto eu me previno a ele.
Eu me mantenho quieto até que falem comigo.E só me sinto na hora de agir quando passam mais de 3 minutos sem tocar no meu nome ou dirigirem-se a mim.
"-Poderia me passar a salada, por favor?"
Enquanto eu passo esse sufoco enorme, minha noiva me sorri discreta e maliciosamente, com códigos não-verbais que só nós conhecemos.Códigos esses que, por conta de risadinhas inoportunas, eu imagino que o pirralho ao meu lado está começando a decifrar.
Eu disfarço e olho no fundo do prato, do copo,ou algum detalhe insignificante da toalha de mesa numa tentativa desesperada de me desvencilhar do olhar sacana de minha noiva.Ela me provoca de uma maneira que faz eu querer agarrá-la naquele mesmo momento, abraçá-la como um louco e correr com ela nos braços dali pro quarto mais próximo, que por acaso é o do velho, não sem antes dizer:
"O senhor me dê uma “licencinha”, pois eu vou comer a sua filha."
Ele com certeza me mataria, mas eu estaria feliz. Afinal, teria morrido por alguns minutos de prazer com quem eu amo. Certo?
...
Aí é que tá.Esses momentos me fizeram pensar em algo que eu sempre tive medo: será que estou prestes a me casar com a mulher certa? Será ela mesma a mulher a quem eu amo? Será essa mulher capaz de me fazer um homem feliz, por mais que os anos passem?
Que ela é a mulher que mais me tara não há dúvidas, mas o que me aflige é não saber com qual das minhas 2 cabeças ela mexe mais.
Daí em diante, o restante do almoço foi esse tormento de me flagrar sem saber o que sinto.
Ela continuava sorrindo pra mim da mesma maneira, e eu de certa forma sentia que a amava, mas me faltava a certeza.Me faltava a segurança de poder dizer sem mentir a mim mesmo e a qualquer um que quisesse saber:
"Sim.Eu a amo!” E com ponto de exclamação.
E ela continuava sorrindo, e eu comecei a quase não perceber. A mesa começou a ser tirada. Meu quissá futuro sogro começou a fumar e tomar café, e eu continuei pensando.
Vozes ecoavam na minha cabeça:
"O arroz estava bom?"
"Eu não tenho certeza."
"O que?!"
"Estava maravilhoso! Quando sua comida não está maravilhosa?Quando eu e Olivia nos casarmos, vou querer a senhora cozinhando pra nós.”
"Engraçadinho!"
"Você não tem vergonha mesmo! Não bastasse levar minha filha ainda quer a minha esposa!"
"Papaaai!"
Será que isso foi mesmo uma brincadeira como ele quis mostrar?Esse sorriso do velho, amarelado pela nicotina, me dá essa garantia?
"De maneira alguma. Eu tenho certeza que a Olivia será uma excelente dona de casa, assim como a mãe.”
"Dessa vez vc foi esperto. Que tal um dominó? Suzete tire a mesa!”
(Mas que delicadeza)
"Mas é claro.Eu ia sugerir isso agora."

Engana-se quem acha que essa conversa sem nexo me fez parar de pensar no motivo maior da minha angústia.
É essa mulher com quem eu quero acordar o resto da minha vida? São esses os avós que eu quero pros meus filhos? É com um sogro desses com eu quero almoçar incontáveis domingos da minha vida?
Eu acho dominó tão chato quanto tirar pelos de gato de blusas de lã. Ela merece que eu agüente isso por anos a fio?
Até então eu realmente não sabia. E eu estava disposto a qualquer custo a determinar isso naquele domingo quente na casa dos meus possíveis encalços eternos (pois não é segredo pra ninguém que família de esposa é, geralmente, não uma pedra, mas um Grand Canyon no caminho para a tranqüilidade).
Pedras na mesa. Olivia e eu versus Suzete e Ramiro. Uma garrafa de café, um cinzeiro e um maço de cigarros do meu sogro compõem o restante do cenário.

Começa a partida. O velho sai com a sena. Eu sou o próximo. Não tenho nenhuma sena.Passo. A velha tem. Sena com terno. Olivia tem um terno. Um terno dobrado. Ela põe na mesa. A pedra fica torta, mas ninguém ousa mexer; a peça é essa. Ela sorri pra mim. E eu descubro: eu a amo!(Com ponto de exclamação)
Ela sorri pra mim. Os cabelos estão penteados com um capricho que faria um desavisado pensar que ela se apronta pra um jantar de gala. Pensamento esse que seria desfeito quando o desavisado notasse que ela usa camiseta, shorts e havaianas. Brincos e a aliança no dedo direito são os dois únicos adornos mais significativos. Ela está linda. Não mais linda do que costuma estar. Simplesmente está linda. E é quando eu o vejo, impune e debochador. Discreto, porém facilmente notável com um olhar mais perspicaz. Eu o vejo, ela o tem. Ela o tem e não sabe! Ela tem um feijão no dente!

Nada deprecia mais uma pessoa que o feijão no dente.
Você jamais respeitaria seu chefe se ele te desse uma comida de rabo (mesmo daquelas que até o porteiro do prédio vizinho fica sabendo) com um feijão no canino piscando pra você.
Se você assistisse a uma palestra notando que o palestrante fala através de um feijão colocado simetricamente entre o canino e o siso, muito provavelmente, ao final, teria que perguntar a alguém qual foi o tema abordado.
E ver um sorriso de uma boca "afeijoada" e não ter vontade de rir ou vomitar é a prova mais concreta de que é amor.
Então eu posso dizer que descobri: sabe-se que o amor é amor quando a pessoa amada tem um feijão no dente. Porque se esse feijão não realça o seu charme, ao menos não me fez ter vontade de correr pra longe dali e nunca mais voltar. Bastaram minutos da mais cruel dúvida pra que eu me desfizesse de qualquer receio. É ela quem eu amo, é ela quem eu quero, mesmo que me venha sorrindo com a denúncia do almoço ainda dentro da boca.

O velho está alheio à minha descoberta e joga o terno na mesa.
Eu me jogo em cima da mesa, e a beijo como num filme (talvez um filme soft-porn pudesse proporcionar um beijo daqueles em cima de uma mesa), e derrubo o terno do meu (agora sim) futuro sogro. Derrubo todas as outras pedras da mesa. Quase derrubo a mesa. O velho grita; a velha grita. Eu penso em gritar, mas volto atrás. Peço mil desculpas, e digo ter visto um bicho peçonhento qualquer no pescoço dela. (Até então ela não havia gritado, mas aí ela o faz). A velha volta a gritar; o velho encerra o jogo, se levanta e sai da cozinha esbravejando e me condenando ao fogo do inferno.



Slash - Jan / 06

Ao som de: Los Hermanos - Dois Barcos

domingo, 19 de outubro de 2008

Me deixa


Me deixa ir, assim já não dá
Você que me ama, não me deixou te amar
Agora me deixa viver
Me deixa saber o que se esconde atrás da onda
Foi você quem disse
Que ela não vai voltar

Me deixa voar
Cair de cara no chão
Porque eu não quero sair da briga
Antes de lutar

Me deixa te esquecer
Andar na rua sozinha
Viver a vida que é minha
E que você quer roubar

Quero provar o gosto
Sentir o cheiro, tocar o sujo
Rolar na lama, morrer de medo
Quero chorar de saudade
E matar a vontade
Seja ela qual for
Seja ele o amor
E você uma saudade
Que nunca vai passar

Me deixa correr
Que eu já cansei de descansar
Eu quero correr o risco
E perder o medo
Quero provar o beijo
Pra depois me machucar

Mas vê se não some
Me deixa, mas não me esquece
Se por acaso eu voltar
Finge que eu nunca parti
Me abraça, me aquece

E não me deixa escapar

Slash - Out/08


Ao som de: Jeff Buckley - Forget Her